Entrevista com Campos de Carvalho

Campos de Carvalho escreveu, entre 1956 e 1964, quatro livros maravilhosos. Já havia escrito antes, mas, por escolha própria, isso só vale como dado bibliográfico (ele mesmo pediu a omissão do livro Tribo, de 1954, da edição de sua obra reunida). O fato é que A lua vem da Ásia, Vaca de nariz sutil, A chuva imóvel e O púcaro búlgaro constituem um dos quartetos mais fantásticos da literatura brasileira. Mas mesmo com a reedição de sua obra reunida, seus livros continuam para poucos, muito menos do que mereciam. Poucos mas apaixonados. Assim como o seu amigo Antonio Fraga, autor do igualmente espantoso Desabrigo, forma-se quase uma confraria em torno de seus livros.
Essa entrevista foi realizada em 1997, no seu apartamento em Higienópolis, num apartamento antigo e comportado, mobiliado com móveis estilo anos 1950 e com as paredes ostentado as pinturas de Lígia, sua mulher. Nada que desse uma dica de que ali morava um escritor surrealista. O que já era, de fato, algo um pouco surreal. Durante a entrevista, respondia após longos e constrangedores silêncios, olhos perdidos, e quando já achávamos que tinha esquecido a pergunta, soltava uma resposta precisa, como se fosse doloroso encontrar as palavras. Era esse o Campos de Carvalho que encontramos, o homem que disse numa entrevista recente que “sorrir dói”, não o “louco que aprendeu a rir da própria loucura”, como o personagem de Tribo. No começo da entrevista, soltava respostas que pouco remetiam a nossas perguntas, e que na sua maioria já havíamos lido em entrevistas anteriores. Quando pedimos que respondesse o que estávamos perguntando, disse constrangido que, como estava com problemas de fala, elaborava as respostas antes e as decorava, acrescentando que afinal todos perguntam as mesmas coisas mesmo. Então se tornou mais espontâneo. Mas só fomos nos dar conta das pérolas mais tarde, em casa, pois no mesmo tom com que dizia as coisas mais prosaicas, como preferir sorvete de creme, contava-nos que tinha ido para a Argentina e não se convencera. Ela não existia. Certa altura, percebendo nosso desconforto, mais fruto de encarar uma figura para nós já mítica do que do andamento da entrevista, perguntou-nos se estava nos decepcionando. Não, Campos de Carvalho, certamente não estava.
(Sergio Cohn)

Prata – Hoje, com todos os avanços científicos e tecnológicos, já é possível assegurar a existência da Bulgária?

Mais ou menos, não existe nada comprovado. As preocupações da ciência são outras, pensa-se em ir a Marte, que, aliás, não existe.

Prata – Algum outro lugar não existe?

A Argentina. Eu estive lá há dois anos, mas não me convenci não. Fui a Mar Del Plata com a Lígia, minha mulher, para um cassino. Eu adoro cassinos, mas voltei desiludido. O cassino existia, deixei todo o meu dinheiro lá…

Sergio – E o Brasil?

Em termos. No começo do mês, quando recebo o meu ordenado e pago os impostos, me convenço de que ele existe. Depois me esqueço dele. Não sei se sou brasileiro.

Prata – E o Espírito Santo?

Não existe.

Prata – Fale-me sobre a revelação que você teve na rua Lauro Borges, depois de uma missa.

Ah, sim, sobre o diabo, não? Aquilo foi quando eu perdi a religião, a abandonei por completo.

Sergio – Por quê?

Não sei explicar. A idéia de Deus me soa completamente absurda. Mais fácil eu existir do que Deus.

Prata – A tua mulher acredita em Deus?

Acredita, embora eu seja muito convicto e tente convencê-la do contrário. Mas eu não tenho muita influência. Outro dia, ela começou a reler O púcaro búlgaro para saber por que era tão falado. Parou no meio, o que quer dizer que não gostou muito. Ela conheceu um rapaz de Uberaba, o Campos de Carvalho dela, e eu me tornei um escritor surrealista, o que é muito difícil para ela.

Sergio – Você ainda acha que O púcaro búlgaro é o seu melhor livro?

Eu acho O púcaro búlgaro o meu livro mais importante. Eu escrevi ele em 24 dias, que é muito pouco tempo, eu acho. O editor me encomendou, eu comecei a escrever. Eu sempre começo muito incerto, nunca sei onde o livro vai dar.

Prata – Como você começa a escrever seus livros? Por um personagem, um parágrafo, um tema?

Todos os meus livros surgiram assim de repente. Você não gostou do Púcaro?

Prata – Adorei. Mas prefiro o A lua vem da Ásia.

Sergio – Eu também. Ele também foi escrito em pouco tempo, como o Púcaro?

Não. Escrevi em um ano, mais ou menos. Eu tinha 40 anos, e estava andando em Copacabana, quando passei em frente ao hotel… hospital… Cemitério São João Baptista, que fica ali na rua Real Grandeza. E então me lembrei que a lua vinha da Ásia. Não sei porque, mas vem. Fiquei com aquele pensamento. E então comecei a escrever um livro. Saiu no mesmo ano que o livro do Mário Palmério, Vila dos confins, que eu adoro. Ele era muito inteligente. Nós fomos companheiros de quarto, na faculdade.

Prata – Então A Lua Vem da Ásia surgiu a partir do título?

Sim. Eu escrevi primeiro o título. A vaca de nariz sutil também.

Sergio – Você escreveu um livro de poemas, também. Algum deles chegou a ser publicado?

Não. Eu mostrava aos poetas. Aqui em São Paulo eu procurei o Mennotti Del Pichia, depois o Guilherme de Almeida. Eram poetas da época, modernistas.

Sergio – Você foi influenciado pelo Modernismo?

Não. O Mário de Andrade eu conheci pessoalmente, na sua casa na Lopes Chaves. E me comparavam muito com o Oswald. Mas eu não me influenciei por eles. O Murilo Mendes eu gosto imensamente, um dos grandes poetas nossos. Ele tinha um humor muito sutil.

Sergio – Você não gostaria nunca de reeditar o Tribo?

Não. É um livro de juventude, que só poderia ser escrito naquela época. Ele tem muita coisa que foi retrabalhada no A vaca de nariz sutil e no A chuva imóvel. Mas eu não me reconheço mais nele.

Prata – Por que você prefere O púcaro búlgaro?

Pelo humor. Eu sempre tive muita facilidade com o humor. Mesmo antes de escrever. Eu sempre li e apreciei muito os humoristas. Comecei a escrever muito tarde, 40 anos. Antes eu lia demais, principalmente a literatura francesa. Mas depois deixei de ler para escrever, para evitar qualquer influência. Mas não consegui. O surrealismo é uma influência minha muito grande, e eram os surrealistas que eu lia com preferência.

Sergio – Você gosta do humor do Benjamim Perét?

Era dos que eu lia menos. Quando ele esteve por aqui, eu o conheci na casa do Aníbal Machado.

Sergio – Os surrealistas valorizavam muito o humor. André Breton chegou a editar a Antologia do humor negro. Você acha que o humor é uma forma de arte?

Principalmente. E eu me sinto à vontade no humor. Tanto que estou escrevendo um novo livro atualmente, como se chama mesmo? Eu ando esquecendo até os nomes dos meus livros…

Prata – É aquele Maquinarias sem máquinas, especulações sem espelhos?

Não, é o Mosaico sem Moisés. Eu estou escrevendo no tipo de humor do Púcaro. O humor de O púcaro búlgaro saiu muito à vontade, sabe? Para mim mesmo foi uma revelação.

Sergio – Foi um livro gostoso de escrever?

Muito, muito. Eu ria escrevendo.

Prata – Eu trouxe aqui um livro de um bulgarólogo importante, que diz que esteve na Bulgária e governou ela por muito tempo…

Mentiroso. Todo livro que eu leio sobre a Bulgária chego à conclusão que é falso. Quando fui fazer a noite de autógrafos no Rio, o cônsul búlgaro me procurou, e eu expliquei para ele que não conhecia a Bulgária (mesmo porque ninguém conhece), mas que o livro não era nenhuma ofensa. Acho que fui muito injusto com a Bulgária.

Prata – Você já consumiu drogas?

Não. Mesmo porque isso não existia quando eu era moço. É coisa da modernidade. Mas eu bebia muito, cheguei a ser alcoólatra. Você vê que o meu jeito de falar é ruim, né? A pior coisa do mundo é envelhecer. Você perde todas as ilusões. E eu sou muito pessimista. O humor é matéria desse pessimismo.

Sergio – Você sempre foi pessimista?

Sempre.

Prata – Então escrever humor era como uma válvula de escape?

Sim, é isso.

Sérgio – E você era muito metódico para escrever?

Não. Eu nunca sei o que vai sair quando começa um livro, escrevo corrente. Se me perguntarem o que vai ser o Mosaico sem Moíses, não saberia responder. Eu nunca sei onde o livro vai me levar.

Prata – Você escreve todo dia ou só quando vem uma inspiração?

De noite, de preferência.

Prata – Você acredita em inspiração?

Sim.

Sergio – E você reescreve muito?

Não, eu nunca mexi em meus livros. Eu escrevia primeiro a lápis, depois passava caneta e datilografava, mas não mexia em nada. Tem uma frase no A Lua Vem da Ásia que o Jorge Amado pediu para tirar na reedição do livro, que segundo ele não tinha nada a ver. Eu não tirei.

Sergio – Você conhecia o Jorge Amado antes de lançar os seus livros?

Não. Eu fui na Livraria São José, onde sabia que ele sempre estava. Então encontrei ele e me apresentei como o autor de A lua vem da Ásia. Ele me disse: “não diga, já comprei mais de trinta livros para dar para os amigos”. E ficamos amigos, eu almoçava na casa dele. O Jorge Amado que eu conheci é o dos primeiros livros, que eu achava muito melhores.

Prata – E qual era o seu trabalho na época?

No Rio, eu era chefe de quatro advogados. Era muito fácil. Entrava à uma e saía às duas. Morando no Rio não havia sentido em ficar preso num gabinete. Eu trabalhava num departamento, no setor jurídico.

Sergio – É melhor escrever ou ser lido?
Escrever. Você liberta muita coisa sua. E eu nunca vi alguém comprar o meu livro. No Rio, quando lancei os livros, eu ia para as livrarias e ficava esperando, vendo se alguém comprava algum exemplar. Nunca vi ninguém comprar.

Sergio – A chuva imóvel é o livro mais sério que você escreveu, não?

É. Trágico. E a parte final eu levei muito tempo para escrever. Não consegui terminar o livro. Então decidi terminar da minha maneira, nomeei o capítulo “Zona de sombra” e comecei a escrever, ao correr da pena.

Prata – Quando se lêem os seus livros, eles soam muito claros, muito bem construídos. Como você consegue construir tão bem um livro sem reescreve-lo?

Eu nunca reescrevi nada. O estilo penso que é da natureza. Eu não sabia que era escritor e era.

Sergio – Os seus livros possuem uma linguagem que poderia ser considerada pesada na época que foram publicados. Isso não causou nenhum problema?

(Lendo) “O filho da puta e a puta que o pariu desapareceram com o dinheiro do MSTB… Merda! E esta hora devem estar se rindo a minha custa, rindo e fodendo, o que é pior…” Há trinta anos atrás era difícil escrever assim, “fodendo”. As pessoas procuravam outra palavra. “Só hoje, passaram-se trinta e seis horas que eu dei com o bilhete de Rosa no pinico… A merda do bilhete, com a sua caligrafia de puta e analfabeta… Me desculpa; vou com o Expedito. Ainda usou pouco ponto e vírgula, a cadela!”. É, não sei como me safei…

Prata – Você ia muito ao cinema?
Muito. No Rio eu ia sempre. Mas eram filmes da época, meio antigos…

Sergio – Que diretores você gostava?

Gostava muito do Fellini, tem muito humor. O Bergman eu acho fantástico, gostei de todos os filmes dele. Pena que não sai mais nada.

Prata – Você assistia os filmes brasileiros da época? Glauber Rocha, por exemplo?

Glauber Rocha eu fiquei conhecendo porque ele escreveu um artigo violentíssimo numa revista, na época que saiu o Púcaro. E eu gostava muito dele como diretor. Fiquei chocado. Ele era fã de livros regionalistas, e me chamava de alienado.

Prata – Você gosta do Nelson Rodrigues?

Muito. Ele é maravilhoso, tinha um humor fantástico. E eu sempre disse que ele ia se tornar o que é hoje, mas as pessoas não acreditavam.

Sergio – O que te dá prazer atualmente?

Eu fiquei trinta anos sem escrever, e às vezes me pergunto o porquê disso. Escrever é o que me alimenta agora. Eu levei muito tempo para me reconhecer capaz de escrever novamente. Mas isso O púcaro búlgaro dá a entender, né? O Jorge Amado, quando o Púcaro saiu, também me telefonou e disse que depois dele eu jamais conseguiria escrever outra coisa. Ele errou, porque estou escrevendo novamente.

Prata – Você acha que isso é o perigo de escrever uma obra-prima, o medo de nunca fazer algo tão bom quanto?
Eu nunca tive medo. Confio no meu estilo. Agora, faltou humor. Eu perdi o meu humor. Eu era muito engraçado, fazia rir os colegas, as moças do escritório. O humor é sedutor. E eu escrevo sempre para os jovens. As pessoas lêem meus livros atualmente?

Sergio – Sim.

Isso é bom, porque foi para vocês que eu escrevi. Eu escrevi os meus livros para a juventude. Quando eu lancei meus livros, o Ênio Silveira, que era o meu editor, me disse que eu só seria lido dali a trinta anos. Só que eu não sabia que trinta anos durava tanto…

Prata – Você foi feliz na juventude?

Tristíssimo.

Sergio – Você escreve pensando na liberdade?

Sim. Eu sou um anarquista.

Sergio – A impressão que o A lua vem da Ásia me passa é a de que quanto mais o personagem toma conhecimento do mundo à sua volta, mais livre ele fica.

Sim, isso aconteceu mesmo no livro. E comigo também. Quanto mais eu escrevia, mais livre ficava. Depois de um tempo, eu acabei me sentindo completamente livre. E o conhecimento sempre é bom, né. É necessário conhecer.

Sergio – Você acha o A lua vem da Ásia alegórico?

Não. Eu nunca pensei em mensagem ou alternativa.

Prata – Você acha que a arte traz liberdade?

Para mim trouxe. A arte é a única coisa em que se pode confiar nessa vida. E o sexo. Nos meus livros eu falo muito de sexo. O sexo, depois da arte, é a única coisa válida nesse mundo.

Sergio – Para você o Surrealismo foi uma solução?

Acho que sim. Todos os meus livros foram surrealistas e eu não me forcei a isso.

Prata – Você vê surrealismo no cotidiano?

Hoje menos que antes, não sei por quê.

Prata – A sua escrita possui traços biográficos ou é tudo inventado?

Tudo inventado.

Sergio – Eram as barbas que cresciam em pensamento?

Sim. Mas agora eu não estou usando barbas. Eu não consigo me expressar todo em entrevistas. Quando leio minhas entrevistas no jornal estou sempre me repetindo. Mas na arte não, na arte eu estou inteiro.

Prata – Você acha que existe mais de Campos de Carvalho em seus livros do que aqui?

Eu me vejo mais na arte do que em mim mesmo.

Sergio – Você não morou às margens do rio Sena porque já esteve em Paris?

Pois é. Paris existe. (falando com a mulher) Lígia, se você vai sair, na volta me traz um sorvete.

Prata – Você também prefere sorvetes de frutas?

Não, de chocolate e creme. Eu tenho muito pouco a ver com meus personagens.

Sergio – Você não parece em nada com os seus personagens?

Não pareço com nenhum, sou louco à minha maneira.

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